O estudo apresenta a caracterização química de moedas de prata do século XVII por meio de fluorescência de raios X (XRF), analisando cerca de 320 exemplares de importantes casas da moeda da América e Europa, como Potosí, Cidade do México, Lima, Sevilha e Utrecht. A pesquisa construiu um banco de dados composicional e aplicou análise estatística multivariada para diferenciar perfis químicos entre mints.
Os resultados mostram que elementos como ouro, cobre e especialmente bismuto funcionam como marcadores relevantes. O método foi testado em uma moeda da Colônia da Baía de Massachusetts (1652), cuja composição indicou maior similaridade com metais de Potosí e México.
Conclui-se que a XRF associada à análise estatística permite rastrear a origem provável de moedas históricas, oferecendo ferramenta científica robusta para o estudo da circulação global de prata no século XVII.
Durante a convenção promovida pela Sociedade Numismática Brasileira, foi apresentada uma pesquisa inovadora voltada à caracterização química de moedas de prata do século XVII por meio de espectrometria de fluorescência de raios X (XRF). O estudo busca estabelecer perfis composicionais capazes de identificar e diferenciar grandes casas da moeda que atuaram no contexto da expansão comercial global.
O século XVII marca o início da consolidação do comércio intercontinental. Para a pesquisadora australiana responsável pelo estudo, o período possui relevância particular: foi nessa época que europeus tiveram os primeiros contatos com a Austrália. Navios holandeses que navegavam rumo à Ásia — transportando grandes quantidades de prata americana destinada ao mercado chinês — naufragaram na costa da Austrália Ocidental.
Grande parte dessa prata era oriunda das minas americanas e cunhada em casas da moeda como:
Potosí
Cidade do México
Lima
Sevilha
Utrecht
Esse fluxo de prata — América → Europa → África → Ásia → Oceania — representa um dos primeiros sistemas verdadeiramente globais de circulação monetária.
A pesquisadora analisou aproximadamente 320 moedas de prata pertencentes à coleção da American Hispanic Society, utilizando um equipamento portátil de XRF emprestado pelo Metropolitan Museum of Art.
A técnica XRF é não destrutiva: um feixe de raios X incide sobre a superfície da moeda, excitando os átomos presentes. Quando os elétrons retornam ao seu estado original, emitem energia característica de cada elemento químico. A leitura do espectro permite identificar e quantificar elementos como:
Prata (Ag)
Cobre (Cu)
Ouro (Au)
Chumbo (Pb)
Bismuto (Bi)
Como a técnica analisa apenas a superfície, existe o risco de que contaminações superficiais distorçam os resultados. Para minimizar esse problema, os dados foram normalizados considerando Ag, Cu, Au, Pb e Bi como base de 100%, seguindo metodologia experimental validada por estudos comparativos entre superfície e núcleo metálico.
Cada moeda foi analisada seis vezes (três no anverso e três no reverso), garantindo maior robustez estatística.
O objetivo central não era caracterizar moedas individuais, mas definir a “assinatura química” média de cada casa da moeda. A partir das análicas, foram identificados padrões relevantes:
Maior variabilidade de ouro em determinadas casas.
Elevada presença de cobre nas casas holandesas.
O bismuto mostrou-se excelente elemento traçador para diferenciação entre mints.
Para interpretar os dados multivariados, foi utilizada análise fatorial (semelhante à Análise de Componentes Principais – PCA), permitindo reduzir múltiplas variáveis químicas a dois eixos gráficos e visualizar agrupamentos por origem.
Observou-se sobreposição entre casas holandesas — algo esperado — e distinções mais claras em casos como Sevilha e Guatemala.
Como teste, foi analisado um shilling de 1652 da Colônia da Baía de Massachusetts, região que não possuía minas de prata próprias.
O algoritmo comparou sua composição com o banco de dados e indicou maior similaridade com moedas de Potosí e México, sugerindo mistura de metais provenientes dessas regiões.
O método não apenas aponta a origem mais provável, mas também fornece percentual de similaridade com cada centro produtor.
A pesquisa demonstra que a combinação entre análise química não destrutiva e estatística multivariada permite:
Caracterizar casas da moeda do século XVII.
Identificar a origem provável de moedas sem documentação histórica.
Compreender fluxos globais de prata no início da economia mundial integrada.
Trata-se de uma aplicação sofisticada da ciência dos materiais à numismática histórica, ampliando o potencial investigativo da disciplina e aproximando-a das ciências exatas.
Nilton Romani