O presente estudo analisa a atuação do Banco Mauá no Uruguai durante o século XIX, com base na apresentação de Javier Avellera realizada em evento da Sociedade Numismática Brasileira. A pesquisa aborda a participação do empresário brasileiro Irineu Evangelista de Sousa no financiamento do governo uruguaio durante o cerco de Montevidéu e a posterior criação da primeira instituição bancária emissora de papel-moeda no país.
O banco iniciou suas operações em 1857, expandindo-se por diversas regiões do Uruguai e também para áreas da Argentina, contribuindo para a ampliação do crédito e da circulação monetária regional. O estudo destaca ainda os impactos das reformas monetárias, das crises políticas e dos conflitos militares sobre a estabilidade financeira da instituição.
Conclui-se que o Banco Mauá desempenhou papel fundamental na formação do sistema bancário uruguaio e na integração econômica do Cone Sul, embora tenha enfrentado declínio devido à concorrência internacional e às crises financeiras da década de 1870, encerrando suas atividades em 1877.
A história econômica da América do Sul no século XIX foi marcada pela formação de instituições financeiras responsáveis pela organização do crédito, da circulação monetária e do financiamento estatal. Nesse contexto, destaca-se a atuação do empresário brasileiro Irineu Evangelista de Sousa, conhecido como Barão e posteriormente Visconde de Mauá, cuja influência ultrapassou as fronteiras do Brasil e alcançou países vizinhos, especialmente o Uruguai. A apresentação realizada por Javier Avellera, representante uruguaio em evento da Sociedade Numismática Brasileira, analisa a trajetória do Banco Mauá no território uruguaio e sua relevância para a história numismática regional.
O surgimento da relação entre Mauá e o Uruguai está diretamente ligado ao período do cerco de Montevidéu, ocorrido entre 1843 e 1851. Durante esse conflito, o governo uruguaio enfrentava graves dificuldades financeiras e buscava apoio externo para manter suas operações militares e administrativas. Representantes do país foram enviados ao Rio de Janeiro, onde estabeleceram contato com Irineu Evangelista de Sousa, importante comerciante e industrial brasileiro. A partir dessa aproximação, firmaram-se acordos financeiros destinados ao financiamento de despesas governamentais e militares.
Embora mudanças políticas posteriores tenham inicialmente invalidado contratos firmados com Mauá, novas negociações permitiram o reconhecimento das dívidas e fortaleceram os vínculos econômicos entre o empresário e o governo uruguaio. Esse cenário favoreceu a expansão das atividades financeiras do grupo Mauá na região do Prata.
Em 1856, foi instalada em Montevidéu uma agência vinculada ao banco de Mauá, que iniciou a emissão de papel-moeda sem autorização formal do governo uruguaio. A medida provocou rápida reação das autoridades, que determinaram o fechamento da instituição poucos dias depois e exigiram a troca das notas emitidas por ouro. Apesar do episódio, o projeto bancário não foi abandonado.
No ano seguinte, em 1857, o Banco Mauá recebeu autorização oficial para operar, tornando-se a primeira instituição a emitir papel-moeda de forma organizada no Uruguai. As emissões incluíam valores equivalentes a uma onça e frações monetárias expressas em centésimos, refletindo forte influência do sistema monetário luso-brasileiro então vigente. Inicialmente, os bilhetes eram produzidos localmente, com assinaturas manuscritas, sendo posteriormente impressos em Londres por empresas especializadas, demonstrando a internacionalização da produção monetária.
Durante as décadas seguintes, o banco expandiu suas atividades por diversas regiões do país, estabelecendo agências em cidades como Salto, Paysandú, Mercedes e Melo, além de operações em território argentino. Essa expansão acompanhava o crescimento comercial regional e o aumento da necessidade de crédito e circulação monetária.
Entretanto, o período também foi marcado por instabilidade política e econômica. Conflitos militares, como os acontecimentos ligados à região de Paysandú e posteriormente à Guerra da Tríplice Aliança, impactaram diretamente o sistema financeiro. Em determinados momentos, o governo uruguaio decretou o curso forçado das notas bancárias, suspendendo sua conversão em ouro, medida que afetou a confiança pública e a estabilidade das instituições financeiras.
Outro elemento relevante foi a reforma monetária uruguaia de 1862, que introduziu o sistema métrico decimal e redefiniu o valor do peso em cem centésimos. A transição gerou confusão entre a população, especialmente quando novas emissões do Banco Mauá mantiveram referências ao antigo “peso forte”, associado ao sistema anterior. Esse episódio demonstra os desafios enfrentados na adaptação econômica e na consolidação de um padrão monetário moderno.
Além das atividades bancárias, Mauá participou de iniciativas industriais e de infraestrutura, incluindo projetos agrícolas, iluminação urbana a gás e conexões internacionais de comunicação, como o cabo submarino que ligou Portugal à América do Sul. Tais iniciativas evidenciam o caráter empreendedor e integrador de suas ações econômicas.
Apesar da ampla expansão, a instituição entrou em declínio na década de 1870. A concorrência de bancos estrangeiros, crises financeiras internacionais e corridas bancárias levaram à suspensão das atividades em 1875, quando numerosos clientes buscaram converter seus bilhetes em ouro. Embora tenham sido firmados acordos com o governo para continuidade das operações, o banco perdeu gradualmente sua capacidade financeira.
Em 30 de junho de 1877, o Banco Mauá encerrou oficialmente suas atividades no Uruguai após o término do período estabelecido em seus estatutos. Posteriormente, Mauá publicou um relatório dirigido a credores e ao público explicando as causas da falência e reafirmando a importância de preservar sua reputação pessoal acima da acumulação de riqueza.
Irineu Evangelista de Sousa faleceu em 1889, pouco antes do fim do Império do Brasil. Apesar de sua enorme relevância econômica, sua morte recebeu pouca atenção da imprensa uruguaia da época. Ainda assim, sua atuação deixou profundas marcas no desenvolvimento financeiro da região do Prata, especialmente na introdução do sistema bancário emissor e na modernização das práticas monetárias sul-americanas.
Assim, o estudo do Banco Mauá revela não apenas a história de uma instituição financeira, mas também o processo de integração econômica regional e os desafios enfrentados na construção dos sistemas monetários nacionais no século XIX.
Nilton Romani