O presente estudo analisa a origem histórica e numismática da medalha comemorativa associada ao monumento de Cuauhtémoc, oferecido pelo México ao Brasil durante as celebrações do Centenário da Independência brasileira em 1922, realizadas no Rio de Janeiro. A pesquisa, baseada na palestra de Ricardo de León apresentada na Sociedade Numismática Brasileira, investiga o contexto diplomático do evento e os processos de produção das medalhas distribuídas na ocasião.
A análise demonstra que o monumento e as medalhas simbolizaram o fortalecimento das relações diplomáticas entre México e Brasil, envolvendo participação oficial de autoridades, delegações militares e ações de cooperação institucional. Estudos documentais questionam a tradicional atribuição da fabricação das medalhas à empresa Tiffany & Co., indicando provável produção por outro ateliê de cunhagem em Nova York.
Foram identificadas diferentes versões das medalhas, incluindo exemplares em bronze, ouro e possivelmente prata, destinados a distintos níveis protocolares. Conclui-se que essas peças constituem importantes registros materiais da diplomacia cultural latino-americana do início do século XX, contribuindo para a compreensão das relações internacionais e da memória numismática entre os dois países.
Os estudos numismáticos frequentemente ultrapassam a simples análise de moedas e medalhas como objetos metálicos, permitindo compreender contextos políticos, culturais e diplomáticos entre nações. Nesse sentido, a palestra apresentada por Ricardo de León, durante evento promovido pela Sociedade Numismática Brasileira, analisa a origem histórica e numismática da medalha comemorativa relacionada ao monumento de Cuauhtémoc, oferecido pelo governo mexicano ao Brasil nas celebrações do Centenário da Independência brasileira, em 1922.
O evento comemorativo realizado no Rio de Janeiro constituiu não apenas uma celebração nacional, mas também uma exposição internacional que reuniu diversos países interessados em fortalecer relações diplomáticas e comerciais com o Brasil. Nesse contexto, o governo mexicano, liderado pelo presidente Álvaro Obregón, decidiu oferecer um presente simbólico à nação brasileira como demonstração de amizade e reconhecimento mútuo entre os países.
A escolha do monumento dedicado a Cuauhtémoc — último imperador asteca capturado durante a conquista espanhola — possuía forte significado histórico e identitário para o México. A estátua, inspirada no monumento existente na Cidade do México, foi produzida nos Estados Unidos e instalada na cidade do Rio de Janeiro como símbolo permanente da cooperação entre as duas nações. O gesto também representava uma retribuição diplomática, uma vez que o Brasil havia anteriormente homenageado o México durante as celebrações de seu próprio centenário.
A missão mexicana enviada ao Brasil contou com ampla comitiva diplomática, militar e cultural, liderada por José Vasconcelos, então secretário de educação mexicano e nomeado embaixador plenipotenciário para as comemorações. Relatos históricos indicam que a delegação viajou ao Brasil a bordo do navio mercante Coahuila, transportando representantes oficiais, músicos e militares responsáveis pelas cerimônias protocolares.
Um episódio particularmente relevante mencionado na pesquisa refere-se ao contexto político brasileiro da época. Poucos meses antes das celebrações ocorreu a Revolta do Forte de Copacabana, gerando instabilidade interna. Diante desse cenário, o presidente brasileiro Epitácio Pessoa solicitou que tropas mexicanas participassem da escolta oficial durante as cerimônias do centenário, evidenciando o alto nível de confiança diplomática entre os dois países naquele momento histórico.
Paralelamente à inauguração do monumento, foram produzidas medalhas comemorativas destinadas a autoridades e participantes do evento. Durante décadas, acreditou-se que tais medalhas teriam sido fabricadas pela famosa joalheria norte-americana Tiffany & Co., hipótese baseada nos relatos de José Vasconcelos. Contudo, investigações posteriores conduzidas por Ricardo de León demonstraram inconsistências nessa atribuição.
A ausência de registros nos arquivos da empresa levou à reconsideração dessa teoria. A análise das marcas presentes nas medalhas, especialmente a presença de uma letra “C”, indicou a possibilidade de produção por outro ateliê de cunhagem ativo em Nova York no início da década de 1920. Esse dado evidencia como testemunhos históricos, embora relevantes, podem gerar interpretações equivocadas quando não confrontados com documentação material e arquivística.
Outro aspecto relevante refere-se às diferentes versões da medalha. Documentos diplomáticos confirmam a produção de exemplares em bronze, amplamente distribuídos durante o evento, além de um número extremamente limitado de medalhas em ouro — estimado em cinco unidades — destinadas a chefes de Estado e autoridades de alto escalão. Apenas um exemplar em ouro é atualmente conhecido em coleções e registros de leilões internacionais.
Há ainda indícios da existência de exemplares em prata, possivelmente produzidos em quantidade reduzida e distribuídos a organizadores e membros importantes da comitiva diplomática. A escassez documental sobre essas peças mantém aberto um importante campo de investigação dentro da numismática latino-americana.
Do ponto de vista simbólico, o design da medalha apresenta elementos iconográficos ligados à história mexicana, incluindo representações associadas à morte de Cuauhtémoc e à tradição pictográfica pré-hispânica. Destaca-se também a imagem de uma águia em movimento descendente, inicialmente interpretada como símbolo de queda, mas posteriormente compreendida como uma águia em ataque, representando continuidade e resistência.
Assim, a medalha e o monumento tornam-se testemunhos materiais dos vínculos diplomáticos estabelecidos entre México e Brasil no início do século XX. Mais do que objetos comemorativos, representam instrumentos de memória histórica e cooperação internacional, preservando até os dias atuais a narrativa de amizade entre as duas nações.
Nilton Romani