id 1 -5969
ACESSE SUA CONTA   |   facebook

Cadastre-se   //   Vantagens   //   Esqueci minha senha

Vamos aprender sobre cunhagens feitas em Bruxelas para Ibero-América



O artigo apresenta a atuação histórica da Casa da Moeda de Bruxelas, na Bélgica, na cunhagem de moedas para países ibero-americanos entre os séculos XIX e XX. Fundada ainda no período medieval (com registros de cunhagens desde 983), a instituição ganhou projeção internacional após a independência belga (1830), especialmente sob a direção de Joseph Allard, que expandiu sua atuação para mercados estrangeiros.

Durante conflitos como a Guerra Franco-Prussiana (1870) e em períodos de instabilidade monetária em diversos países, a Casa da Moeda de Bruxelas tornou-se alternativa estratégica para nações que não podiam cunhar em seus próprios territórios ou em outras casas europeias.

Entre os principais países atendidos destacam-se:

  • Brasil: Cunhagem expressiva de moedas de cobre entre 1869 e 1901, totalizando cerca de 229 milhões de peças.

  • Peru (1879–1880): Emissão emergencial de moedas em cobre-níquel diante de crise monetária.

  • Venezuela (1879): Primeiras moedas em bolívares, alinhadas ao padrão da União Latina.

  • Colômbia (1897 e 1907): Moedas fracionárias e emissões ligadas ao papel-moeda.

  • El Salvador, Haiti, Equador e outros países da América Latina também recorreram à cunhagem belga em diferentes momentos.

  • País Basco/Espanha (1876): Emissões durante a Guerra Carlista.

  • Casos singulares como a Araucânia e Patagônia e a efêmera República Independente da Guiana também aparecem na documentação histórica.

A Casa da Moeda de Bruxelas atuou tanto como empresa privada quanto pública (a partir de 1933), encerrando definitivamente suas atividades em 2017. Desde 2018, as moedas belgas são produzidas na Casa da Moeda da Holanda.

Conclui-se que a Casa da Moeda de Bruxelas desempenhou papel relevante na história numismática ibero-americana, especialmente em períodos de transição política, crises monetárias e reorganizações econômicas, consolidando-se como importante centro europeu de cunhagem internacional.





A Casa da Moeda de Bruxelas e as Cunhagens Ibero-Americanas: Uma História de Conexões Numismáticas

Introdução

A história numismática ibero-americana não pode ser compreendida apenas a partir das casas da moeda nacionais. Ao longo do século XIX e XX, diversas nações recorreram a oficinas estrangeiras para suprir demandas monetárias urgentes, técnicas ou estratégicas. Entre essas instituições, destaca-se a Casa da Moeda de Bruxelas, na Bélgica, cuja atuação foi decisiva para vários países da América Latina, Espanha e Portugal.

Este artigo apresenta uma análise histórica das cunhagens realizadas em Bruxelas para nações ibero-americanas, contextualizando contratos, volumes de produção, aspectos técnicos e episódios pouco conhecidos.


Origens da Cunhagem em Bruxelas

A atividade monetária em Bruxelas remonta ao século X (tradicionalmente datada entre 965 e 983). Após a independência da Bélgica em 1830, a Casa da Moeda passou a estruturar-se como instituição moderna.

Figura central nesse processo foi Joseph Allard, joalheiro, banqueiro e diretor da Casa da Moeda a partir de 1846. Sob sua liderança, a instituição expandiu significativamente suas atividades internacionais, especialmente após a Guerra Franco-Prussiana (1870), quando vários clientes deixaram de cunhar moedas na França e na Alemanha.

Inicialmente empresa privada, a Casa da Moeda de Bruxelas tornou-se pública em 1933. Em 2017, encerrou definitivamente suas atividades, passando a produção monetária belga para a Casa da Moeda dos Países Baixos.


Brasil: O Maior Cliente Latino-Americano

O Brasil foi o principal cliente ibero-americano da Casa da Moeda de Bruxelas.

As primeiras provas ocorreram em 1863 (20 e 40 réis). Em 1869, foram cunhadas grandes quantidades de moedas de 10 e 20 réis em cobre. Em 1871 e 1901, seguiram-se emissões de 100, 200 e 400 réis.

No total, foram produzidas aproximadamente 229 milhões de moedas brasileiras em Bruxelas, correspondendo a cerca de 1.338 toneladas de metal — a maior cunhagem latino-americana realizada pela instituição.

Um detalhe relevante: como a Casa da Moeda era privada na época, os contratos foram firmados diretamente entre o Governo Imperial do Brasil e Joseph Allard, e não com o Estado belga.


Peru e Venezuela: Emergência Monetária e União Latina

Em 1879, o Peru enfrentava escassez monetária e dificuldades operacionais na Casa da Moeda de Lima. Bruxelas cunhou moedas de 5 e 10 centavos em cobre-níquel, material então relativamente novo.

No mesmo período, a Venezuela buscava alinhar-se tecnicamente à União Monetária Latina. Embora rejeitada formalmente pela França, adotou padrões equivalentes (leis 835, 900 etc.) e recorreu à Bélgica para cunhar:

  • 1/5 bolívar

  • ½ bolívar

  • 1, 2 e 5 bolívares (prata)

  • 20 bolívares (ouro)

Curiosamente, essas primeiras moedas em bolívares não apresentavam valor facial explícito.

Documentos de arquivo revelam a origem do ouro utilizado: lingotes, moedas russas, japonesas, austríacas e espanholas — evidência da circulação internacional de metal precioso.


Colômbia: Contratos e Peculiaridades Técnicas

A Colômbia recorreu a Bruxelas no final do século XIX. Um episódio curioso envolve moedas de 10 centavos cuja liga foi produzida com teor de prata 0,665 em vez de 0,666 — diferença aceitável dentro da tolerância contratual.

Houve ainda projetos não concretizados devido a impasses diplomáticos entre representantes franceses e colombianos.


El Salvador e Haiti: Bancos Privados e Produção Fragmentada

El Salvador contratou cunhagens em quatro ocasiões (1904–1913), não por meio do Banco Central, mas por bancos comerciais.

No caso do Haiti (1846), a produção foi distribuída entre três instalações diferentes na Bélgica, incluindo fábricas privadas, antes da finalização na Casa da Moeda de Bruxelas.


Espanha e País Basco: Guerra e Experimentação

Durante a Terceira Guerra Carlista (1876), houve cooperação entre a Casa da Moeda de Oñate e Bruxelas.

Também foram cunhadas moedas do País Basco durante a Guerra Civil Espanhola, incluindo exemplares em alumínio-bronze — material inovador na época. Algumas peças foram interceptadas, mas posteriormente circularam.


Equador: Contratos Indiretos

Nos anos 1990, o Equador não contratou diretamente a Casa da Moeda, mas empresas privadas fornecedoras de metal, que subcontrataram Bruxelas para a cunhagem de milhões de moedas de sucre.

Esse modelo ilustra a transformação do mercado monetário internacional no final do século XX.


Casos Singulares: Reinos Efêmeros e Provas Raras

Entre os episódios mais curiosos estão:

  • Moedas do chamado Reino da Araucânia e Patagônia, projeto monárquico efêmero no sul da América do Sul.

  • Provas para Portugal (1862) com design similar ao belga.

  • Ensaios da chamada República Independente da Guiana.

  • Provas argentinas de patacón, cuja oficialidade ainda é debatida.


Uruguai: Negócios Não Concretizados

Houve tentativas de contrato com o Uruguai em 1936, mas diferenças de preço — em comparação com Viena — impediram a concretização.

Documentos preservados mostram inclusive cotações de transporte marítimo desde Antuérpia até Montevidéu.


Conclusão

A Casa da Moeda de Bruxelas desempenhou papel significativo na história numismática ibero-americana, atuando como fornecedora estratégica em momentos de crise, modernização monetária ou reorganização política.

Sua atuação revela:

  • A interdependência monetária internacional

  • A importância técnica do cobre-níquel e do alumínio-bronze

  • A influência de redes bancárias privadas

  • A relevância diplomática dos contratos de cunhagem

Mais do que simples produção metálica, essas moedas representam conexões históricas entre Europa e América Latina, evidenciando que a numismática é também história econômica global.

A trajetória de Bruxelas encerra-se institucionalmente em 2017, mas seu legado permanece nas coleções, arquivos e na memória monetária de diversos países ibero-americanos.



Fonte:

Autor do blog: Nilton Romani

id 2 -5969
Voltar
Compartilhar
Facebook Twitter YouTube Feed de notícias
Coleções de Cédulas e Moedas Brasileiras © 2014. Todos os direitos reservados.